Joelho varo – Quando é realmente indicada a correção cirúrgica?

Quando alguém descobre que tem joelho varo, a primeira reação costuma ser de dúvida. Afinal, será que esse desalinhamento sempre precisa ser corrigido? No dia a dia, é comum que a pessoa perceba que as pernas parecem mais “abertas”, formando um desenho semelhante a um “O”. Ao mesmo tempo, muitos convivem com esse formato desde a infância e não apresentam qualquer sintoma. Em outras palavras, o simples fato de ter joelho varo não significa automaticamente que existe um problema — mas isso não quer dizer que ele deve ser ignorado.

Por outro lado, existem situações em que o varo altera a distribuição de carga na articulação, acelera o desgaste da cartilagem e aumenta o risco de dor e limitação funcional. Justamente por isso, entender quando essa alteração exige tratamento cirúrgico é fundamental para evitar decisões precipitadas ou tardias. A boa notícia é que, na maioria dos casos, o joelho varo pode ser monitorado e tratado sem cirurgia, desde que haja acompanhamento adequado.

O que é o joelho varo e por que ele merece atenção

O joelho varo acontece quando existe um desvio do eixo mecânico, fazendo com que o centro de carga passe mais pela porção medial (interna) da articulação. Ou seja, a parte interna do joelho trabalha mais do que deveria, enquanto a face externa fica menos solicitada. Esse desequilíbrio, com o passar do tempo, pode gerar sobrecarga e desgaste da cartilagem medial.

Nesse sentido, é importante destacar que o varo pode ser constitucional, ou seja, parte da anatomia natural da pessoa. Geralmente, esses casos não causam dor e não exigem grandes intervenções. Porém, quando o varo é acentuado, surge com o tempo ou está associado a dor e limitação, o cenário muda completamente. Isso porque o desalinhamento afeta todo o funcionamento da articulação, interferindo na marcha, na força muscular e na absorção de impacto.

Por outro lado, o joelho varo também pode aparecer em consequência de doenças articulares, como a osteoartrite. Nesses casos, o desgaste da cartilagem medial faz com que o joelho “entorte” ainda mais, criando um ciclo de progressão. O que começa com uma alteração leve pode evoluir para dor constante, rigidez, estalos e perda de mobilidade.

Por isso, compreender a causa do varo, o grau de desalinhamento e a presença de sintomas é essencial. Nem todo varo é igual — e é justamente essa individualização que determina se o caso é cirúrgico ou não.

Quando o joelho varo começa a criar problemas reais

Em grande parte dos casos, o joelho varo só passa a preocupar quando surgem sintomas persistentes. A dor na região interna do joelho é a queixa mais comum, especialmente durante atividades que aumentam a carga na articulação, como caminhar longas distâncias, subir e descer rampas ou permanecer longos períodos em pé. No dia a dia, isso pode tornar tarefas simples mais desconfortáveis, prejudicando a qualidade de vida.

Além disso, o varo muda a dinâmica da marcha. O corpo passa a fazer compensações para reduzir o incômodo, e essas adaptações podem sobrecarregar quadril, tornozelo e até a lombar. Ou seja, o problema que começa no joelho frequentemente se espalha para outras regiões — e muitas pessoas só percebem quando a dor já está instalada em mais de um lugar.

Outro sinal importante é a instabilidade. Quando o desalinhamento cria sobrecarga constante, a musculatura estabilizadora começa a perder eficiência, e pequenas falhas de apoio tornam-se mais frequentes. Em alguns casos, o paciente relata que o joelho parece “falhar” em determinados movimentos, especialmente quando muda de direção ou aumenta a intensidade das atividades físicas.

A evolução da artrose é outro ponto de atenção. Vários estudos mostram que o joelho varo acentuado acelera o desgaste da cartilagem medial. Uma pesquisa publicada no Journal of Bone and Joint Surgery demonstra que indivíduos com varo têm risco significativamente maior de progressão da osteoartrite medial.

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Como o ortopedista avalia a necessidade de cirurgia

A decisão pela cirurgia nunca se baseia apenas na aparência das pernas. Na prática, o ortopedista avalia uma combinação de fatores: sintomas, função, grau de desalinhamento, qualidade da cartilagem e impacto do varo na vida cotidiana. Ou seja, não é o varo isolado que determina a necessidade de correção — e sim o conjunto do quadro clínico.

O exame físico é o primeiro passo. Ele permite visualizar padrões de movimento, identificar instabilidades, medir o eixo de carga e avaliar a força muscular. Em seguida, exames de imagem, especialmente a radiografia panorâmica em ortostase, mostram com precisão o alinhamento do membro inferior. Esse exame é fundamental, porque revela quanto do peso corporal está sendo absorvido pela parte interna da articulação.

Por outro lado, quando há suspeita de lesões associadas, como desgaste de cartilagem, lesão meniscal ou alterações ligamentares, a ressonância magnética pode complementar o diagnóstico. Da mesma forma, a avaliação funcional é essencial: entender como o varo interfere no dia a dia ajuda a definir qual caminho gera melhores resultados a longo prazo.

Em resumo, a decisão pela cirurgia é sempre individualizada. Cada paciente apresenta um “padrão” próprio de varo — e é esse padrão, junto dos sintomas, que guia o tratamento.

Quando a correção cirúrgica é realmente indicada

A correção cirúrgica do joelho varo, chamada osteotomia, não é indicada para todos os casos. Pelo contrário, a maioria das pessoas com varo leve ou assintomático não precisa operar. A cirurgia é recomendada quando existem sinais claros de que o desalinhamento está prejudicando a função e acelerando o desgaste da articulação.

Geralmente, os principais critérios incluem:

Dor persistente na região medial, que não melhora com fisioterapia, fortalecimento, ajustes na pisada ou redução de impacto.

Entre os outros fatores que também indicam necessidade de cirurgia, estão:

  • Eixo mecânico muito desviado, causando sobrecarga significativa.
  • Progresso acelerado de artrose, comprovado em exames.
  • Instabilidade e limitação funcional importante, afetando atividades simples do dia a dia.
  • Pacientes relativamente jovens, em que a preservação da articulação é prioridade.

Nesse sentido, a osteotomia consegue redistribuir melhor a carga, diminuindo o estresse na parte interna do joelho e retardando a progressão da artrose. Como resultado, muitos pacientes conseguem manter suas próprias articulações por mais tempo, evitando uma prótese total antes da hora.

Por outro lado, a cirurgia não é indicada quando a artrose já está muito avançada. Nesses casos, a prótese de joelho tende a ser uma alternativa mais adequada. Ou seja, existe um “momento ideal” para operar — nem cedo demais, nem tarde demais.

É possível evitar a cirurgia? O que realmente funciona no tratamento conservador

Antes de pensar em cirurgia, é fundamental passar por um período de tratamento conservador bem conduzido. Em grande parte dos casos, o fortalecimento muscular direcionado melhora significativamente os sintomas, especialmente quando a dor está relacionada a sobrecarga dinâmica, e não apenas estrutural. Os músculos do quadril, glúteos, isquiotibiais e quadríceps atuam como estabilizadores do alinhamento e reduzem o colapso medial durante atividades como caminhar, subir escadas e correr.

Além disso, treinos de controle motor e estabilidade ajudam o corpo a distribuir melhor a carga. Em outras palavras, não é apenas ganhar força, mas ensinar o corpo a se mover de forma eficiente. Palmilhas podem ser úteis em casos específicos, principalmente quando há alteração importante na pisada que contribui para o desalinhamento.

A perda de peso, quando necessária, também faz diferença imediata no alívio dos sintomas. Afinal, cada quilo a mais aumenta significativamente a carga sobre a articulação — e isso é ainda mais relevante em quem já tem sobrecarga medial por causa do varo. A literatura médica reforça esse ponto: uma revisão publicada no Arthritis & Rheumatism demonstra que a redução de peso diminui a progressão da artrose e melhora sintomas em pacientes com desalinhamento.

Mesmo assim, existe um limite para o tratamento conservador. Quando o desalinhamento é estrutural e acentuado, a fisioterapia consegue melhorar sintomas, mas não modifica o eixo mecânico. Nesse cenário, a cirurgia se torna a melhor opção para preservar a articulação a longo prazo.

No fim das contas, a decisão entre tratamento conservador e cirúrgico deve ser construída a duas mãos — paciente e especialista — avaliando expectativas, estilo de vida e metas de longo prazo.

Se você tem joelho varo, sente dor frequente ou percebe que o alinhamento está piorando com o tempo, vale conversar com um especialista para avaliar o seu caso com precisão. Marque uma consulta e entenda se o seu joelho precisa apenas de fortalecimento direcionado ou se já é o momento ideal para considerar a correção cirúrgica. Isso garante mais segurança, previsibilidade e qualidade de vida — hoje e nos próximos anos.